Aqueles ditos dedos
Tudo ali tinha gosto de paz. Mas uma paz inquieta, ácida, por vezes cortante e certamente passageira. O que me havia levado a sonhar com tantas pessoas em desalinho? Eu não pertencia àquele lugar, um reino onírico de indivíduos comuns, tão comuns, a ponto de me fazerem protagonista do alheio. Nunca minha. Nunca meu sonho.
Certa vez, ouvi em um daqueles documentários sócios da insônia, que os sonhos são o retrato (não era bem essa palavra) dos nossos desejos, uma espécie de descarga do nosso inconsciente. Mas ali estava provado que não. Seria eu tão incompetente com minhas próprias vontades? Essa história de ser enganada por mim mesma não me desce. Sou dona desse território aqui. Bem ou mal, sou eu quem governo minha cidade de dentro. E só se governa o que se conhece. Ou não? Falo de uma política da gente… Uma gestão das leituras que fazemos do mundo que desenhamos. Aquele sonho não era meu.
Uma mulher aparentando seus oitenta anos, que, para ela, seriam certamente primaveras. Para mim, outonos. Uma cadeira de rodas. Uma televisão a sua frente. Uma manta de algodão tingido de telha em suas pernas. Sim, telha. É uma cor. Uma camisola desgastada pelo tempo ou pelo uso, com estampas daquelas flores que nunca conhecemos de perto.
Uma mulher sentada. Uma cadeira de rodas. Um olhar fixo, não na TV. Mas acima dela, como se visse na parede algo assustador.
Uma mulher sentada.
E eu a observar o ponto fixo do seu olhar, numa angústia que não sei de onde veio, mas que acabou por inquilina dentro de mim.
Uma mulher sentada. E um bibelô invisível na parede.
Ou seria a decepção com aquela tinta descascada? Um branco-gelo revelando um verde-água por detrás de suas cascas?
Uma televisão ligada. Um volume alto. Talvez fosse o barulho daquelas notícias o real motivo de tanta fixação ou medo. Talvez.
Perguntei-lhe por seu nome, mas ela não me respondeu. Afinal, quem seria essa intrusa de meus sonhos? Que mulher vestiria camisola tão desgastada e cobrir-se-ia com uma manta tão sem gosto?
Deu-me o silêncio por resposta. Mas aquele olhar me respondia muito além do que minhas tentativas de conhecê-la. Eu só não compreendia a resposta de sua íris envelhecida, rodeada de uma nata de experiência.
Por um momento, temi a velhice.
Por um grande momento.
Por um momento sem prazo.
Aproximei-me. Toquei sua mão. Aqueles dedos… Aquelas rugas em formas de dedos. Aquele amontoado de pele fina em uma carcaça de falanges… Aqueles ditos dedos tremiam descompassadamente. E eu descobri. Aquele olhar fixo era de medo. Aqueles ditos dedos eram de minha mãe. Não eram dela.


“Seria eu tão incompetente com minhas próprias vontades?” 🥹 Lindo texto!